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As pequenas rugas

Las arruguitas1 de cada 10

Sim, aqueles. Aquelas que aparecem nos cantos dos olhos quando você sorri. Não nas primeiras vezes – porque naquela época eu ainda não tinha coragem de olhar tanto para você – mas depois, quando comecei a prestar muita atenção, foi a primeira coisa que me desarmou. Nem suas palavras, nem seus gestos, nem mesmo suas mãos. E as mãos são a primeira coisa que noto numa pessoa.

Mas com você percebi aquelas falas pequenas, quase inéditas, que perturbavam minha calma e me faziam apaixonar. Não são rugas, na verdade. Eles são como estradas. Como se cada risada, cada tristeza ou cada cansaço estivessem marcando um pequeno mapa ao redor dos seus olhos, um mapa que ninguém mais parece olhar, mas que eu sei de cor. Eu poderia percorrê-lo com a ponta dos dedos, lentamente, sem pressa. Mas eu não faço isso. Eu só olho para ele de uma distância segura, me perco e me perco nele.

Às vezes, quando você sorri, não ouço o que você diz. Tudo desliga para mim. Vejo apenas o gesto, a leve dobra da pele, aquele momento em que os olhos ficam um pouco menores e parece que o mundo se solta também. E lá fico eu, calado, tentando não parecer idiota. Acontece sempre a mesma coisa comigo.

Gosto das suas rugas porque são reais. Porque não há artifício, nem pose, nem luz que os esconda. E já estou cansado de gente que se esconde atrás de esmalte. Você não. Você sorri e sua pele te denuncia. E eu adoro isso: a denúncia. Deixe o corpo dizer o que você não diz. Que sua risada fique gravada em você como uma confissão sem palavras.

Eu me perco no silêncio, sim. Não por timidez, muito menos por falta de o que dizer. Mas porque não quero quebrar esse momento. Porque enquanto você sorri, o barulho do mundo diminui e só fica isso: o seu rosto, a luz e aquele desenho mínimo de vida que se forma ao lado dos seus olhos. Um detalhe tão simples e tão absurdo e ao mesmo tempo tão meu… Pelo menos enquanto olho para você.

Gosto das suas pequenas rugas. E eu gostaria de tocar em você, tocá-los. Não de uma forma desajeitada ou romântica, mas para entender a textura daquele momento, para saber se o seu riso também pode ser sentido na ponta dos dedos.

Mas eu nunca faço isso. Me contenho porque sei que, se te tocasse, não seria mais apenas um olhar, nem um jogo de silêncios, nem uma bela saudade. Seria outra coisa. E não sei se estou pronto para isso. Ou se você estiver.

Muitas vezes penso que se você me tocasse, você notaria. Você notaria como minha pele guardaria seu gesto, assim como a sua guarda essas marcas. E que, então, eu também teria algo seu, mesmo que ninguém visse. Um rastro. Uma pegada. Uma ruga invisível que se abre toda vez que me lembro de você.

Vejo você sorrir, vejo como o tempo se instala em seus olhos com uma delicadeza que dói, e penso que gostaria de poder ficar dentro desse segundo, escondido entre suas rugas, onde ainda não há medo, nem mora nome, nem o fim foi escrito.

Eu me pergunto se mais alguém notou. Se mais alguém ficou preso ali, naquele seu gesto que não dura nada e ainda assim parece uma eternidade. Quero acreditar que não, que esta descoberta é só minha, que só eu sou seu devoto silencioso. E você sabe por quê? Porque cada vez que você sorri assim, com as pequenas rugas dançando nas laterais dos olhos, sinto que meu mundo ordena seu caos e o resto desaparece.

E embora eu nunca me canse de dizer que não gosto de sexo anal, tem uma coisa que me incomoda no cuzinho e com vaselina com tropeços: eu sei que, quando eu parar de olhar para você, a vida vai continuar, e as risadas vão ser diferentes, e aquelas rugas ainda vão estar aí, mas não para mim. E ficarei com a lembrança dos braços cruzados, com aquele pequeno tremor e com aquela imagem precisa da sua pele dobrando-se sobre a luz.

Às vezes, acho que é isso que me liga a você: aquelas duas pequenas marcas que me dizem que você riu, que viveu, que ainda está vivo e que, de uma forma absurda e silenciosa, eu também.

© Sara Levesque

Fonte: 20 Minutos

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