Houve um momento exato – ridículo e glorioso – em que pensei: você vai me beijar de uma vez por todas ou devo fazer um desenho para você?
Eu não disse isso. Claro que não disse isso. Porque você tem educação, autocontrole e um histórico impecável de engolir boas frases justamente quando elas são mais necessárias.
Mas pensei nisso com clareza cirúrgica.
Lá estava você, perto demais para ser casual e longe demais para ser corajoso. Olhando para minha boca como quem olha uma placa em outra língua: entende a ideia geral, mas não ousa cruzar a fronteira. Eu ainda estou, você ainda, o ar ficando mais denso como se alguém tivesse aumentado ao máximo a umidade emocional.
O corpo inteiro dizendo “sim”. A cabeça dizendo “espere”. E eu, no meio, pensando que se fosse preciso pegaria papel e caneta. Porque não foi falta de sinalização. Houve olhares. Houve silêncios com segundas intenções. Houve aquela leve inclinação do seu corpo que já não engana ninguém.
A única coisa que não houve foi ação. E chega um ponto em que o romantismo se transforma em logística. Em que o desejo necessita de instruções claras. Em que a pessoa deixa de se sentir uma musa e passa a se sentir uma professora de geometria aplicada ao beijo.
Aqui?
Agora?
Então?
Deu vontade de rir e te beijar ao mesmo tempo, o que é uma combinação perigosa, porque geralmente termina em um de dois: ou um beijo desajeitado e maravilhoso, ou outro “quase” que depois tem que ser carregado como bagagem emocional.
Então sim, pensei sobre isso.
Você vai me beijar de uma vez por todas ou devo fazer um esboço para você?
Não por impaciência. Foi pura evidência. Havia tanta coisa escrita entre nós que só faltava sublinhar com a boca. E então aconteceu o que sempre acontece quando ninguém ousa, mas o desejo já tomou conta: o mundo encolheu.
Não houve barulho. Não havia música. Apenas aquele segundo desconfortável em que ambos sabíamos que, se nada acontecesse, algo iria quebrar para sempre.
Eu me aproximei de você sem te tocar. Essa foi a primeira coisa que te desarmou. Porque não foi o corpo que avançou, foi a intenção. E a intenção pesa mais.
Falei com você tão perto que minhas palavras tocaram você diante dos meus lábios. Eu lhe disse seu nome lentamente, como se o estivesse aprendendo de cor. E eu vi como sua garganta se apertou, como sua respiração saiu, como sua coragem voltou tarde demais.
Foi aí que entendi que ainda não precisava te beijar. Que primeiro tive que tirar sua armadura. Eu olhei para você do jeito que você olha para alguém quando não há como voltar atrás. Não apenas com desejo, mas com aquela mistura perigosa de ternura e certeza que faz doer. Porque você viu: você viu que eu estava lá. Todo. Sem rede. Sem álibis.
E então você sangrou. Não do lado de fora. Dentro. Você sangrou quando percebeu que não era um jogo. Quando você entendeu que eu não estava te pedindo nada, mas também não ia ficar esperando. Quando você viu, nos meus olhos, que eu poderia te amar… e também ir embora.
Foi quando você tremeu. E aquele tremor valeu mais que qualquer beijo. Porque há beijos que emocionam, mas há olhares que desnudam.
E eu te despi sem te tocar.
Não sei se nos beijamos mais tarde.
Não importa.
O importante é que naquele dia você tenha entendido algo que não pode mais ser ignorado: que nem todo mundo está esperando por você, e que há mulheres que, quando te olham assim, não chegam para ficar no meio do caminho.
E isso, amor, faz a alma sangrar. Esta carta deve ser lida duas vezes porque a primeira vez não foi totalmente compreendida e a segunda vez já é tarde demais.
© Sara Levesque
Fonte: 20 Minutos




