Angelí Velásquez sempre soube que queria comemorar seus 15 anos. Quando criança, ela se lembra de mergulhar no álbuns de família antigos da Venezuela e pare nas fotos da festa de 15 anos de sua mãe e de seus primos mais velhos. “Desde pequena queria festejar. Quer dizer, é algo que sempre tive em mente nas fotos da minha mãe”, diz ela.
O desejo se tornou quase um jogo quando eu tinha seis ou sete anos. Um dia, seu pai chegou em casa com alguns saltos prateados de um tamanho que era enorme para ele na época. “Olha, para o seu 15º aniversário”, ele se lembra de ter dito quando lhe deu o presente. Angelí os usava em casa, embora dançassem em seus pés. “Eram grandes demais para mim, não saía com eles, mas usava em casa”, diz, como se estivesse ensaiando com quase uma década de antecedência para uma festa que ainda não existia.
Então a vida os moveu. A família saiu da Venezuela, passou nove anos no Chile e acabou morando na Espanha. Assim, a festa que Angelí imaginou quando criança acabou acontecendo em Madriem uma versão diferente da sonhada, mas semelhante o suficiente para continuar se reconhecendo nela.
“Na Venezuela esta celebração é habitual, é como a transição de menina para mulher”, explica Indira Sanguino, mãe de Angelí. “Geralmente há entrada de quinceanera, valsa, brindes e uma festa bem familiar, com música para todas as idades”, explica. No caso da filha, como acontece com tantos costumes que viajam, a festa de Angelí foi adicionando camadaé: antes da valsa, ela dançou com o pai alma simplesuma música da Venezuela; Depois veio uma cueca chilena que ela dançou com o irmão, uma música mexicana para a avó e um pasodoble que ela dançou com a mãe. “Estamos acrescentando, aos poucos, coisas de cada país onde estamos”, resume Indira.
Em muitos países latino-americanos, a festa quinceanera marca simbolicamente a transição de menina para mulher: uma celebração que tradicionalmente representa que a menina deixou a infância para trás. Reservada apenas a eles, esta celebração assume diferentes formas consoante o país de origem, com ritos e costumes próprios, mas partilha a mesma ideia subjacente: transformar aquele aniversário num acontecimento especial e público. Com séculos de história, a tradição acompanhou a migração e também começa a abrir caminho entre adolescentes nascidos e criados na Espanha.
Em duas malas
Quem melhor viu como esse costume se enraizou na Espanha foi María Martínez. Chegou do México a Madrid com a intuição de que aqui poderia haver uma demanda ligada à população latino-americana, embora naquela época mal houvesse vestígios visíveis daquele mundo. Juntamente com o marido, ela montou um negócio quase às cegas: Trouxeram alguns vestidos do México em duas malas e em 2018 abriram Vestidos 15loja focada no aluguel de vestidos de quinceanera.
O começo não foi fácil. “Durante cerca de seis meses não tivemos um únicosó um cliente”, lembra. Depois começou a se espalhar a notícia: “Primos, amigos e familiares foram a uma festa e de lá saíram novas meninas que queriam os seus”, conta María.
Hoje têm lojas em Barcelona, Valência, Tenerife e Bilbau, e estão a preparar outra em Málaga. O de Madrid, o primeiro que abriram, continua a ser o que concentra mais procura. Ao entrar, uma infinidade de cores e brilhos dão as boas-vindas às meninas que vão experimentar os vestidos, a primeira coisa que se decide na comemoração. “Tudo gira em torno da cor do vestido” Maria explica. “E a partir daí é escolhida a decoração, as flores, o bolo, os convites e até as roupas do restante dos convidados”.
Embora a origem da festa esteja nesse rito de passagem, María a define como “um mini-casamento”, não só pelo custo, mas porque tudo se articula em torno de uma estética e de um protocolo. Os rituais mudam dependendo do país: em alguns casos incluem a troca do sapato raso pelo salto, em outros, o presente de uma boneca como símbolo do fim da infância, além da colocação da coroa ou coreografias com amigos e familiares.
María acredita que a memória familiar ainda pesa na decisão de celebrar este feriado: “Acredito verdadeiramente que há uma questão de identidade, de nostalgia, de reivindicação das origens”, afirma. Mas ele também percebe uma mudança. “É verdade que no último ano ou ano e meio, também tivemos alguns Clientes espanhóis“. Mesmo assim, ainda são uma minoria: “Eu diria que talvez pudesse ser 10%, no máximo 15%, porque realmente sim, embora as meninas já tenham nascido na Espanha, a maioria dos nossos clientes são famílias de origem latina”, explica.
Tradição e adaptação
Nessa mistura entre tradição herdada e adaptação ao presente, vê-se a diferença de significados entre gerações. Laura, filha de mãe boliviana e pai peruano, nasceu em Espanha e vai celebrar a sua festa em maio, num restaurante em Usera, com cerca de 80 convidados, uma limusina com amigos e um DJ para os jovens. Também vai fazer a mudança do sapato raso para o saltovão colocar uma coroa nele e vai ter uma coreografia com toda a família.
A mãe, Jacqueline, fala da festa da filha com emoção e memória: “Como toda menina, ela tem aquele sonho de se vestir de princesa e eu também vivi isso quando era pequena e minha mãe fez isso por mim com tanta dedicação que “Eu gostaria que minhas filhas tivessem isso também.”.
Laura, por outro lado, pensa menos nisso. Ela acaba de decidir por um vestido rosa e explica que para ela sua festa significa simplesmente “que estou envelhecendo”. O dimensão de identidade fica em segundo plano: “Para mim é uma festa”, diz.
Para Celeste, que completará 15 anos no final de maio, a vontade de comemorar a festa também vem mais da estética do que da tradição. Filha de mãe dominicana e pai peruano, também nasceu na Espanha e ele nunca foi a uma festa de aniversário de 15 anos, mas está claro que quer a sua própria. “Não sei, gosto de festa. O tipo de festa é legal”, diz ela enquanto experimenta vestidos de cores diferentes.
Sua mãe, Diana, chegou à Espanha quando tinha 10 anos e não teve quinceanera. “Passei meus 15 anos aqui e fizemos uma festa normal e pronto”, lembra. Enquanto a filha hesita entre um vestido verde e um azul, ela ri ao explicar que no caso dela o lado paterno pesa mais: “O pai dela está mais enraizado nessas tradições. É por isso que Diana olha o fenômeno com distanciamento, mas também com compreensão. “Acho que agora está de volta como a mania do TikTok.” Para ela, muitas meninas não pensam mais na velha transição “de menina para mulher”, mas na festa, no vestido e nas imagens que circulam nas redes.
A semente
As redes não inventaram a quinceanera, mas mudaram a forma como ela circula. Indira, mãe de Angelí, acredita que eles ajudam a agregar novas modas e detalhes, desde bailes organizados até formas de decorar o bolo, numa celebração que já está enraizada em muitos países latino-americanos e que está se movendo com a migração. O que antes restava no intimidade da família e ambiente próximoagora multiplicado em telas, vídeos e fotos.
Angelí também percebe essa mudança, embora acrescente uma nuance. Acredite nisso Espanha ainda não está ao nível dos Estados Unidosonde a influência da população latina tornou a celebração muito mais visível, mas acha que acabará por chegar aqui com mais intensidade. Mesmo assim, ele não acredita que tenha surgido do nada. O TikTok amplifica, acelera e infecta, sim, mas “a semente já estava aí antes”, comenta.
María Martínez, proprietária da Vestidos 15, viu essa transformação ao longo de todos estes anos. Quando a loja abriu quase não havia visibilidade e “ainda hoje muitas pessoas descobrem com surpresa que aquele feriado que existe em seus países de origem também pode ser comemorado aqui“. As redes, explica ele, “contribuíram para misturar protocolos e fazer circular ideias entre famílias que às vezes estão ausentes há anos e não sabem mais que ritual seguir”. Também abriram as portas para um novo público: as meninas espanholas que acompanham uma amiga, veem o vestido, a coroa, as fotos e começam a imaginar algo semelhante para si mesmas.
Angelí verificou isso em seu próprio ambiente. Ela conta que na hora de organizar a festa começou a compartilhar vídeos de vestidos, danças e planos para a comemoração, e a vontade era contagiante: “Uma amiga disse ao pai que também queria fazer uma festa assim no seu aniversário de 15 anos”, lembra ela. Assim, a tradição já não passa apenas de mães para filhas, ou de um país para outro, passa também entre amigos, porque De uma festa vivida nasce outra desejada.
Na conta
A fantasia, porém, tem seu valor. Diana conta que, quando perguntou sobre os locais, falaram sobre um mínimo de 60, 80 ou até 100 pessoas e orçamentos de 4.000 ou 4.500 euros. “Parece-me uma loucura”, resume. “Se não, não temos férias de verão”, resume. A solução foi diminuir as expectativas: uma sala normal, decoração simples, alguns balões, um bolo e música. A celebração continua, mas ajustada ao que a família pode assumir.
Razia, que chega à Vestidos 15 para pegar o vestido da filha que vai comemorar a festa naquele mesmo final de semana, é clara, mesmo que seu bolso sofra: “São apenas 15 anos e essa é uma idade que nunca mais volta.” Ele estima que a comemoração rondará “cerca de quatro mil mais ou menos”. Só o menu custa 56 euros por convidadoaos quais devemos acrescentar roupas, fotos, presentes e decoração. “É muito caro”, admite, antes de justificar novamente o esforço pela esperança da filha.
María Martínez insiste que não existe um modelo único. Há festas em hotéis, em quintas, em quartos modestos ou em casa, e famílias que, se não têm condições para um grande evento, querem pelo menos “algumas fotos para ver a menina vestida e ter memória”. Na loja dela há quem alugue o vestido, quem compre, quem acrescente uma sessão de fotos no estúdio ou ao ar livre e quem chegue com anos de economia. No final, o partido adapta-se “ao condições econômicas familiares“, retomar.
E terminado o evento, Angelí fala com muito carinho não só do dia em si, mas também do semanas de preparativos: “Os dias de procura do vestido, dos sapatos, das idas e vindas com toda a família, das fotos, das refeições fora”, enumera, ainda sem conseguir evitar a emoção que tudo isso lhe produzia. “O processo também é super lindo e adorei vivê-lo, quase mais que o resultado.”
Ao seu lado, sua mãe Indira resume a parte emocional de um costume que não permanece intacto, mas também não desaparece: “As raízes sempre estarão lá, e onde quer que formos tentaremos sempre mantê-los o máximo possível.
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Fonte: 20 Minutos




