A acusação do ex-presidente do Governo José Luis Rodríguez Zapatero abre diante dele um panorama inédito depois que, pela primeira vez na democracia, um juiz do Tribunal Nacional concordou em investigar um ex-chefe do Executivo, a quem ele coloca no “ápice” de uma estrutura organizada influenciar de forma supostamente ilícita entre autoridades nacionais e estrangeiras e obter resoluções administrativas e vantagens econômicas em favor de terceiros, principalmente a companhia aérea Plus Ultra, em troca de supostas comissões.
O caso que investiga Zapatero ainda está em uma fase muito inicial, e enquanto os agentes da Unidade Central de Crimes Econômicos e Fiscais (UDEF) da Polícia Nacional trabalham para reconstruir todos os materiais encontrados nas buscas realizadas esta semana no gabinete do ex-presidente do Governo e outras empresas relacionadas – entre elas uma que é propriedade das filhas de Zapatero -, mostra a ordem do juiz José Luis Calama pistas muito reveladoras que foram um duro golpe para o Governo de Pedro Sánchez e para o PSOE, que por agora defendem a sua presunção de inocência.
Em seu detalhado despacho de mais de 80 páginas, o magistrado enfoca o suposto uso irregular do resgate de 53 milhões de euros que o Governo concordou em 2021 para a companhia aérea Plus Ultra e se Zapatero exerceu alguma influência irregular para essa concessão em troca de dinheiro. Segundo o juiz Calama, os dirigentes do Plus Ultra tentaram obter ajuda da Sociedade Estatal de Participações Industriais (SEPI) por meio de “mecanismos fora dos canais legalmente estabelecidos”.
É neste contexto que Calama aponta Zapatero e seu ambiente como “os beneficiários finais da operação”uma vez que “foram detectadas transferências relevantes para as contas das suas filhas, aquisições de imóveis e cancelamentos antecipados de empréstimos, reafirmando a utilização pessoal dos fundos obtidos”.
Enquanto a investigação prossegue, o As próximas semanas serão fundamentais tentar esclarecer as questões que este caso deixa em aberto relativamente à figura do antigo presidente do Governo.
Convocado para testemunhar em 2 de junho
Por enquanto, o juiz do Tribunal Nacional convocou José Luis Rodríguez Zapatero para o próximo 2 de junho declarar-se sob investigação por supostos crimes de organização criminosa, tráfico de influência e falsidade em relação a uma suposta intermediação em favor da companhia aérea Plus Ultra.
As últimas declarações do ex-Presidente do Governo ocorreram no mesmo dia em que foi conhecida a sua acusação, na passada terça-feira, 19 de maio. Num vídeo enviado à comunicação social, Zapatero mostrou-se disposto a colaborar com a justiça, e garantiu que “nunca” teve nenhuma empresa comercial“nem em Espanha nem fora de Espanha”, nem diretamente nem através de terceiros, nem participou em nenhuma operação deste tipo. Além disso, afirmou que exercerá o seu direito de defesa “com toda firmeza e toda convicção”.
Para poder enfrentar a sua investigação no Tribunal Nacional, o ex-presidente do Governo colocou o seu futuro judicial nas mãos do advogado e professor Victor Moreno Catenaque já conta com o despacho de 85 páginas, além de dois relatórios da UDEF aos quais o juiz lhes deu acesso.
Registros e material apreendido
No mesmo dia em que foi conhecida a acusação contra Zapatero, a UDEF realizou diversas buscas simultâneas, incluindo o gabinete do ex-presidenteonde encontraram um cofre e apreenderam diversos bens, como agendas, cadernos ou o telefone de sua secretária. Maria Gertrudis Alcázar.
Durante essas ações policiais, batizadas de Operação Tibete, os agentes também coletaram provas nas empresas Softgestor e What The Fav —este último, propriedade das filhas de Zapatero—, onde foram apreendidos equipamentos de informática e celulares.
Após esses registros, a UDEF está analisando toda a documentação recolhida para tentar responder, entre outras questões, aos pagamentos recebidos por Zapatero e sua comitiva. de Análise Relevanteempresa de seu amigo Julio Martínez, e se esses pagamentos supostamente vieram do Plus Ultra.
Quanto à Análise Relevante, o magistrado vê “sólidos indícios” de que esta empresa era uma “peça instrumental” da “estrutura criminosa” e foi usado para canalizar fundos entre a comitiva de Zapatero. Recebeu e redistribuiu recursos coincidindo com os esforços destinados a influenciar a concessão de ajudas públicas. Revela, segundo o juiz Calama, uma operação “destinada a simular serviços de assessoria”.
Outra questão a investigar é a suposição “padrão” de branqueamento que o juiz vê na criação, presumivelmente por instruções de Zapatero, de um sociedade em dubaidetida integralmente por uma empresa de Julio Martínez – Idella Consulenza Strategica – que por sua vez assinou um contrato para receber 1% do empréstimo à Plus Ultra, sem que o juiz tivesse prova desse pagamento em Espanha.
Da mesma forma, o juiz considera em seu despacho que Zapatero utilizou sua “intervenção direta” em operações internacionais de alto valor econômico, como relativo a ‘petcoke’ (ou coque de petróleo, resíduo final do refino de petróleo que é utilizado como combustível de baixo custo), ouro ou negociação de ações ou moedas.
Nesse sentido, o magistrado destaca a contactos em rede com a Venezuela, a China ou os Emirados Árabes Unidose salienta, por exemplo, que os “potenciais compradores” de petróleo tiveram de se dirigir, através da chamada “carta de intenções”, a Zapatero, com “acesso direto” aos “níveis mais elevados” da política. Resta saber se o material apreendido até o momento lançará mais luz sobre o assunto.
O papel de outras pessoas envolvidas no caso
De acordo com a ordem do magistrado, a suposta conspiração “depende de várias sociedades que cumprem funções diferenciadas dentro do esquema criminoso”, como a Relevant Analysis ou Idella Consulenza, representada por Julio Martínez Martínez; What The Fav, gerida pelas filhas do ex-presidente; Prospective Intelligence, dirigida por dois irmãos venezuelanos e que “constitui uma porta de entrada para fundos estrangeiros simulados como aumentos de capital”, e mais meia dúzia de empresas supostamente envolvidas no fluxo de dinheiro.
Entre as pessoas que aparecem mencionadas no despacho como núcleo de confiança de Zapatero o juiz Calama atribui papel de destaque ao secretário do ex-presidente Maria Gertrudis Alcázara quem confere um “papel operacional essencial” na suposta trama, uma vez que foi responsável pela “preparação e cobertura formal da documentação”.
O foco judicial também é colocado em As filhas de Zapaterojá que o juiz considera que sua agência de marketing What The Fav seria uma “empresa finalista” para canalizar pagamentos ao ex-presidente.
A esposa do ex-presidente também não está imune a esta situação, Sonsoles Espinosaque também aparece no carro como co-proprietário de uma conta bancária com o marido que, entre 2020 e 2025, ganhou 1,5 milhões através de transferências efetuadas por diversas entidades suspeitas no caso Plus Ultra, indica o despacho.
Segundo o magistrado, naquela conta bancária “há créditos” para Análise Relevante no valor de 490.780 euros entre 2020 e 2025, valor que o juiz ordenou bloquear.
Fonte: 20 Minutos




