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“É a opção de menor risco”

El Papa León XIV.Europa Press

Especialistas em comunicação e Inteligência artificial (IA) atribuíram o ‘silêncio’ da maioria das empresas tecnológicas face à posição do Papa Leão XIV sobre IA expressa em sua primeira encíclica ‘Magnifica Humanitas’ -publicada na segunda-feira passada-, para um estratégia de comunicação “não confrontar publicamente” as abordagens de uma “autoridade moral” como o Pontífice e evitar “males a nível reputacional”.

Na encíclica, o Pontífice afirma que “nenhum sistema de cálculo, por mais sofisticado que seja, gera um coração que se doa, nem uma consciência capaz de discernir o bem”; e apela a quadros jurídicos adequados, monitorização independente, educação dos utilizadores e um código de ética.

O silêncio é a opção de menor risco“, afirma o pesquisador de inteligência artificial do Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade Pontifícia Comillas, Eduardo Garrido, acrescentando que “claramente” se trata de uma estratégia deliberada de comunicação corporativa.

Além disso, acredita que “provavelmente” as empresas não se manifestaram porque o Papa não cita empresas específicas. “O texto fala em ‘concentração de poder’, ‘elites tecnológicas’, ‘cultura de poder’, mas sem nomear ninguém. Isso dá às empresas o que em inglês é conhecido como ‘negação plausível’, ou seja, elas podem não se sinta abordado diretamente”, reflete o especialista.

Sobre se se trata de uma posição de respeito pela figura do Papa, tem “certeza” de que não se trata disso, mas de “puro cálculo computacional”. Desta forma, indica que responder é o mesmo que “legitimar a crítica” e que contradizer o Papa com 1,4 mil milhões de católicos é um “enorme risco de reputação“.

Por sua vez, a diretora do Mestrado em Comunicação Corporativa da Universidade Internacional de La Rioja (UNIR), Begoña Gómez Nieto, acredita que “um certo respeito institucional pela figura do Papa pode influenciar”, já que “as grandes empresas tecnológicas estão conscientes” da sua “autoridade moral” e “podem optar por não confrontar publicamente as suas abordagens para evitar danos desnecessários à reputação”.

No entanto, ele especifica que “o silêncio não significa necessariamente adesão ou autocrítica” mas “em muitos casos responde antes a uma estratégia de comunicação prudente: evitar amplificar um debate que questione aspectos estruturais do seu modelo de negócio”.

Evite polarizações

“Responder à mensagem do Papa significaria reconhecer explicitamente que a inteligência artificial representa profundos riscos éticos e sociais, abrindo um terreno desconfortável para empresas cuja narrativa pública continua a associar a IA ao progresso, à eficiência e à inovação. não reagir É também uma forma de posicionamento. Muitas vezes o silêncio tem como objetivo evitar a polarização, minimizando os impactos reputacionais”, insiste.

Da mesma forma, considera que “o silêncio das grandes empresas revela, em parte, a dificuldade de submeter a lógica da inovação acelerada a critérios humanistas e democráticos” e acrescenta que “é possível” que “não se tenham sentido diretamente desafiadas porque a mensagem do Papa evita apontar atores específicos”. Contudo, alerta que “esta ausência de nomes não diminui a responsabilidade daqueles que lideram o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial à escala global”.

Da mesma forma, destaca que “a falta de reação também pode ser interpretada como uma evidência do distanciamento crescente entre o debate ético e a dinâmica real da indústria tecnológica”. “O desafio é traduzir essas advertências morais em obrigações políticas e legais eficaz”, acrescenta.

Para Moisés Ruiz, professor de Comunicação e Liderança Política da Universidade Europeia, a principal razão pela qual as empresas responsáveis ​​pela fabricação de inteligência artificial não responderam ao Pontífice é “por respeito e pelo símbolo do Papa, e por tudo o que a figura de Leão XIV representa no mundo”.

Uma polêmica perdida de antemão

“Há muitos católicos que seguem cegamente qualquer proposta do Papa e não lhes convém entrar numa polémica que teriam perdido de antemão”, indica o especialista em comunicação, acrescentando que entrar no debate “seria também de alguma forma legitimar o quadro crítico sobre o qual o Papa redigiu esta encíclica”.

Além disso, sublinha que “há também uma outra questão interna das empresas tecnológicas refletida nos seus códigos de conduta, em que parecem evitar responder a determinadas questões morais ou filosóficas quando provêm de instituições religiosas”. “Preferem ficar calados e não amplificar a polêmica“, enfatiza.

O especialista indica que a encíclica do Papa tem “um conteúdo ético e também político”. “É muito mais do que técnico. Portanto, se as empresas começarem a responder a uma reflexão ética e política, podem perder de certa forma uma certa idiossincrasia de contexto e de programa. Ou seja, seria um confronto político que tentam evitar, mais do que uma reflexão social ou um ataque direto à sua produção tecnológica”, explica.

Por sua vez, salienta que estas empresas preferem não fazer eco das “proclamações éticas que vêm das instituições religiosas para não entrarem num debate público com o Vaticano” porque isso “significaria perda imediata de reputação”.

“Eles não reagiram de forma contundente por um questão estratégica. Desta forma, evitam envolver-se num contexto que, a partir do momento em que ocorresse esta resposta, deixariam de dominar, porque socialmente o que o Papa disse teve um impacto bastante evidente e creio que esmagaria qualquer argumento contrário”, conclui.

Fonte: 20 Minutos

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