Não sei como explicar sem parecer sentimental, mas direi mesmo assim: não gosto de foder. Não gosto de tocar por tocar, de buscar calor só por hábito, de confundir corpo com companhia e de ter um orgasmo rápido que, quando chega, já fica esquecido.
Não me sinto atraído pela velocidade. O que eu gosto e o que acontece comigo com você vai para o outro lado. É algo que você sente na pele, sim, mas também no ar, nas pausas, na maneira como você me olha quando não digo nada. E embora eu não saiba como é a sensação da sua pele perto da minha, ou qual o gosto dela, ou o quanto somos capazes de suportar o prolongamento do momento, as vezes em que sustentamos o olhar um do outro com um meio sorriso perigoso, fiz você se apaixonar por meus alunos. Isso é, para mim, fazer amor: quando o silêncio também participa.
Não preciso de pressa nem de barulho. Bastaria para mim ter sua respiração próxima, suas mãos me reconhecendo sem cobranças, seus suspiros em todas as línguas de nossas línguas, a calma que se insinua quando estamos juntos e o mundo ficando lá fora para não nos incomodar. Com você não há necessidade de se parecer com nada. Apenas seja. Apenas sinta. Apenas seja. Com você não preciso afinar minha voz nem organizar minhas ideias antes de liberá-las. Não preciso agir de forma interessante ou forte ou de não precisar de nada. Não preciso escolher as palavras nem medi-las, exceto quando quero escolher o elogio certo.
Com você não há estratégia.
Apenas seja.
Estar sem coreografia. Sem seguir o roteiro na areia da praia. Sem aquele esforço constante para ser querido que é mais cansativo do que qualquer dia de onze horas. Esteja com as mãos imóveis, com o riso solto e com silêncio sem medo.
Apenas sinta.
Sinta sem traduzir tudo em lógica. Sem pedir permissão à cabeça para deixar o peito fazer o seu trabalho. Sentir o toque, o olhar, a pausa e não ter que esconder que me importo que você me toque e também que me ignore.
Apenas seja.
Estar com minhas manias, com minha intensidade desmedida, com minhas dúvidas sem esboço de maquiagem vermelha. Seja sem reduzir o volume. Sem diminuir o brilho para não incomodar. Ficar sem pensar se sou demais ou não sou suficiente.
Com você eu não preciso me construir.
Já sou, já sinto, já sou.
Acho que não procuro prazer, mas sim a verdade. Uma verdade simples, como uma carícia sem rumo, como um olhar que não faz perguntas. O que acontece quando dois corpos se entendem sem planejamento e o tempo perde a essência.
Gosto de pensar que fazer amor com você seria algo assim: sem artifícios, sem roteiro, ou sem o peso da urgência. Apenas os tremores, os sorrisos entre os beijos e a bela falta de jeito de quem ousa ser vulnerável e sabe que não será julgado pelo outro.
É por isso que não gosto de foder. Porque não quero um momento. Eu quero a história toda. Quero os capítulos inteiros escritos por nós dois, porque é por isso que somos escritores. Quero os bons e os maus momentos, quero tudo. Quero a pele, sim, mas também o que está por trás dela. Quero o depois, o antes, o durante e aquele abraço que não busca encerrar nada, mas sim continuar.
O que eu quero com você não é gasto. Não é um desejo que se apaga quando realmente quer, mas algo que permanece aceso, mesmo que a luz esteja apagada.
© Sara Levesque
Fonte: 20 Minutos




