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Previsão para Teresina
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Uma abertura silenciosa

Una abertura silenciosa1 de cada 10

No começo pensei que fosse desejo.

Não porque você o provocou conscientemente, mas porque havia uma abertura silenciosa em você que pedia uma boca. Minha boca. Algo que atraiu como coisas quebradas atraem: sem prometer prazer, mas exigindo atenção.

Você se moveu com cuidado, como quem sabe que há uma rachadura e tem medo de tocá-la acidentalmente. Eu via isso toda vez que você se aproximava e depois dava meio passo para trás, toda vez que você me olhava com fome e imediatamente baixava os olhos, como se tivesse aprendido que pedir mais sempre acaba cobrando seu preço.

Por um tempo deixei parecer outra coisa.

Isso parece pele.

Isso parecia sexo contido.

Parece aquela rachadura erótica que convida você a ser beijado.

Mas não.

Não foi aí que doeu.

Eu entendi isso uma noite quando tive você tão perto que pude sentir o cheiro do seu medo. Não o seu perfume: o seu medo. Aquele que se instala logo atrás do esterno e desce verticalmente, abrindo uma fenda interna que ninguém vê, mas que manda.

Aí estava.

Não estava entre as pernas, mas exatamente no centro onde seu coração estava partido e você não sabia como fechá-lo direito.

Por isso não avancei.

É por isso que meus lábios ficaram no meio do caminho.

Porque eu não queria usar aquela ferida para acalmar meu desejo.

Eu queria beijá-la para costurar.

Imaginei te beijar devagar, não para te abrir mais, mas para fechar aquela lacuna invisível. Um beijo aqui, outro um pouco mais alto, outro abraço. Como quem sabe que a pele recupera melhor quando não há pressa. Como quem entende que algumas fissuras não se curam com as mãos, mas com a permanência.

Cada beijo, um ponto.

A cada pausa, um “nada acontece, estou aqui”.

Cada retirada, uma forma de respeito.

Se você alguma vez duvidou do porquê de eu não ter ido mais longe, não foi por falta de vontade.

Foi um cuidado excessivo.

Eu não queria que você sangrasse de prazer.

Eu queria que você parasse de sangrar por dentro.

E isso, minha alma, não se faz arrancando a roupa, mas ficando.

E há uma rachadura em você que, se não olhar de perto, parece outra coisa. Algo erótico, até, sabe? Algo que convida você a abordar com a boca e poucas perguntas. Algo que o mundo leria rapidamente, com aquela falta de jeito natural de quem só entende de superfícies. Uma fenda impregnada de muitas emoções que se beneficiariam com os beijos.

Eu também vi assim no começo. Eu não vou mentir para você.

Eu a vi e pensei nos lábios, na umidade, no gesto exato de quem se inclina sem pedir licença. Pensei em te beijar ali onde parece que tudo começa até você acabar dentro das minhas carícias.

Mas não estava lá.

Não demorei muito para perceber que aquela fenda não era onde o desejo costuma pedir pão para o almoço. Foi mais alto. Muito mais fundo por dentro. Naquele lugar onde alguma coisa quebrou quando alguém saiu sem fechar a porta ou ficou fazendo barulho desnecessário. Na verdade, essa quebra nunca poderá ser tangível porque, se fosse alcançada, você morreria no caminho.

E eu não quero que você morra ainda.

Sua fenda não sangra. Sangra por dentro. É por isso que quase ninguém vê.

Descobri isso nos seus estranhos silêncios, na maneira como você ri antes de evitar uma carícia, naquele seu jeito de oferecer o seu corpo enquanto esconde o seu coração como se fosse um objeto frágil sem seguro de vida. A fenda está aí: vertical, limpa, aprendendo a fechar enquanto tenta entender por que nasceu. Não dói o tempo todo, mas quando dói, dói profundamente. É por isso que não quero fazer o que os outros fariam.

Não quero mais abrir.

Eu não quero pressa.

Não quero confundir desejo com descuido.

Quero beijá-la como quem sabe costurar.

Quero apoiar meus lábios com cuidado, sem invadir, sem cutucar, sem usar para acalmar meu desejo. Que cada beijo seja um pequeno ponto, quase invisível. Não deixe brilhar. Não se gabe. Deixe-o segurar. Que isso faça você se sentir melhor. Que isso faça você se sentir amado.

Um beijo aqui para avisar que nada está acontecendo e, se acontecer, você está cumprimentado.

Mais um para ficar quando você tiver vontade de fugir.

Outro mais longo para que você entenda que nem tudo que chega perto de você chega para te quebrar.

Se você notar que meus beijos param onde outros acelerariam, não é falta de fome. É respeito por aquela fenda que te deixaram quando te queriam muito. É saber que nem tudo que parece erótico pede sexo; Às vezes pede cuidado, paciência e alguém que não tenha pressa de ganhar nada.

Não quero mais que você se abra.

Eu quero que você feche.

E se para isso eu tiver que beijar devagar, ficar mais tempo e não pedir nada em troca, eu farei. Porque há feridas que não se curam com mãos experientes, mas com bocas que sabem quando parar.

E eu, com você, sei exatamente onde.

© Sara Levesque

Fonte: 20 Minutos

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