A última decisão judicial que concede ao MNAC 56 semanas para entregar as pinturas murais de Sijena não tanto resolve um conflito como certifica um fracasso a longo prazo. A aquisição destas obras pela Generalitat, motivada na altura por um desejo legítimo de preservação, foi finalmente declarada nula e sem efeito pelos tribunais. A partir desse momento, a restituição a Aragão deixou de ser uma hipótese e passou a ser um horizonte provável. A verdadeira questão era como geri-lo para minimizar os danos e maximizar o valor cultural partilhado.. E é aí que se perdeu uma oportunidade difícil de recuperar.
Nesta situação houve duas atitudes. O que tem predominado tem sido o confronto: judicialização, resistência política e histórias cruzadas de queixas. A alternativa teria sido antecipar a decisão, assumir a propriedade aragonesa reconhecida pelos juízes e trabalhar num quadro de cooperação entre ambas as comunidades. Tratava-se de governar a realidade com pragmatismo: o MNAC guarda mais de mil obras que não pode expor por falta de espaço, enquanto Sijena aspira a tornar-se um museu de referência. Este contexto foi ideal para articular empréstimos, exposições partilhadas e projetos conjuntos.
Como recordou o antigo ministro da Cultura catalão, Santi Vila, nas suas memórias, em 2017 estava próximo um acordo parcial. Essa rota não prosperou devido à tensão do processocom resistências internas no Governo, nomeadamente no ambiente de Oriol Junqueras, que fecharam o espaço a qualquer solução intermédia. Esse episódio é revelador: a alternativa existia, mas ambos os lados recusaram-se a assumir os custos políticos de explorá-la até ao fim. Na Catalunha pesou a lógica vitimista; em Aragão, o cálculo de que o tempo e os tribunais trabalhariam a seu favor.
O resultado é outro desacordo entre duas comunidades historicamente irmãs. A herança cultural tem sido usada para alimentar ressentimentos entre territórios que na época das pinturas de Sijena faziam parte da mesma Coroa. O sistema cultural perdeu assim uma oportunidade de demonstrar que a cooperação é possível mesmo nas disputas mais acirradas.
Agora, com o prazo de 56 semanas, tudo se resume à execução da pena com garantias técnicas. Há ainda uma margem estreita para acompanhar a restituição com acordos de partilha de conhecimento e valorização do património românico. Seria desejável que ambas as administrações tirassem proveito disso, embora o essencial já tenha sido perdido. E é isso que nos deve desafiar: não só o que os tribunais ditam hoje, mas o que não quiseram – ou não souberam fazer – quando ainda era possível.
Fonte: 20 Minutos




