Em entrevista com 20 minutosdefende que “a agência não evita problemas, mas ajuda a planeá-los melhor e a responder de forma mais coordenada”, e considera que “Espanha deveria, pelo menos, duplicar a despesa corrente em saúde pública para se aproximar da média europeia”.
Eduardo Satué, presidente da Sociedade Espanhola de Saúde Pública e Administração Sanitária (SESPAS)alerta ele em entrevista para 20 minutos que a Agência Estadual de Saúde Pública ainda não está operacional há mais de um ano depois de a lei ter sido aprovada no Congresso dos Deputados. Ele acredita que a gestão técnica do surto hantavírus tem sido “seguro”, embora considere a coordenação institucional e a comunicação pública como “bastante espaço para melhorias”. Alerta também para o aumento das zoonoses ligadas às alterações climáticas e apela à duplicação do investimento na saúde pública em Espanha.
A SESPAS denunciou que a Agência Estadual de Saúde Pública ainda não está operacional mais de um ano após a aprovação da lei. Onde você está agora?
A lei foi aprovada no ano passado, após mais de 14 anos de tentativas, mostrando que a saúde pública não tem sido prioridade para nenhum governo. Neste momento está pendente o processo de aprovação dos estatutos internos que irão regular o funcionamento da agência. Estamos atrasados, porque estes estatutos deveriam ter sido aprovados seis meses depois da lei, e já vimos que as emergências sanitárias não esperam que tenhamos os estatutos para serem activados. Temos que ser mais ágeis.
A aprovação dos estatutos seria suficiente para que a agência começasse a funcionar?
Não. Depois seria necessário definir a sede, a infra-estrutura, o pessoal e começar a desenvolver as funções previstas na lei. O grande desafio será coordenar a saúde pública altamente fragmentada entre as administrações municipais, regionais e estaduais. A agência tem de funcionar como uma rede de redes: um nó de coordenação e não de centralização. E não são apenas emergências, que é o problema agora do hantavírus, mas todos os dias acontecem coisas na saúde pública que temos de coordenar e colaborar de forma eficaz e eficiente.
A existência da agência teria mudado a gestão do surto de hantavírus?
Acho que sim, a gestão teria sido melhor se já estivesse em funcionamento. Para começar, teria havido uma coordenação técnica mais comum entre o Estado e os responsáveis regionais e provavelmente uma melhor coordenação internacional. A agência não evita problemas, mas ajuda a planejá-los melhor e a responder de forma mais coordenada. Porque agora o problema é que somos reativos: quando o problema surge, decidimos como o geriremos. E isso tem que ser planejado, coordenado entre todos os agentes. Deveria ter havido uma melhor coordenação a nível regional, do Estado e da própria OMS.
“Mensagens contraditórias geram desconfiança. Não pode haver um governo dizendo que tudo está sob controle e outro dando o alarme”
Como especialista em saúde pública, como avalia a gestão desta crise sanitária?
Acho que foi feito mais ou menos bem. Do ponto de vista técnico, tem sido muito seguro. Algumas medidas podem até ser excessivas, acho que já colocamos o curativo antes da ferida, né? Mas ei, tudo bem. Agora, do ponto de vista da coordenação institucional e da comunicação, há uma margem considerável para melhorias. E é justamente para isso que a agência serviria.
O que mais falhou?
Mensagens contraditórias geram desconfiança. Não pode haver uma administração a dizer que tudo está sob controlo e outra a dar o alarme. Os cidadãos precisam de mensagens coordenadas e coerentes, especialmente na saúde pública, onde muitas vezes trabalhamos com ameaças invisíveis e cenários incertos.
Acha que o confronto político com as Ilhas Canárias afetou a gestão?
Sim, especialmente na confiança dos cidadãos. A saúde pública precisa de consenso institucional. Quando as mensagens são diferentes, a população perde a confiança no sistema.
Em outros países as medidas têm sido diferentes e menos restritivas…
Tudo depende de onde você deseja colocar o limite de segurança. Mais medidas também implicam mais custos económicos e logísticos. Se tivéssemos um surto como este todas as semanas, provavelmente teríamos lidado com isso de forma diferente. Este surto recebeu muita cobertura mediática, mas não estamos a falar de um vírus desconhecido. Existiam ferramentas para gerenciá-lo e certamente existem aspectos de eficiência que podem ser melhorados.
A Espanha está preparada para futuras emergências de saúde?
Temos um desafio estrutural importante: o aumento das zoonoses ligadas às alterações climáticas. Já estamos vendo doenças que antes não existiam aqui. Isto requer o reforço dos sistemas de vigilância, controlo de vetores e coordenação entre comunidades autónomas. Algumas regiões, como as Ilhas Canárias, possuem sistemas muito avançados nesta área.
Que outras questões urgentes esta agência deveria abordar?
Existem muitos alarmes abertos e tão preocupantes quanto os vírus. As infecções sexualmente transmissíveis triplicaram desde o início do século. Há também preocupação com o aumento do jogo problemático, dos poluentes ambientais e do impacto das alterações climáticas. As ondas de calor afetam toda a população e aumentam a exposição a partículas poluentes. Para enfrentar tudo isso são necessários recursos, talento e uma carreira profissional atraente na saúde pública.
O que a saúde pública espanhola precisa neste momento?
Mais investimento. A Espanha deveria, pelo menos, duplicar os gastos atuais com saúde pública para se aproximar da média europeia. Investir na saúde pública significa proteger e antecipar os riscos que afetam todos os cidadãos.
Fonte: 20 Minutos




