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Presunção de culpa

El expresidente del Gobierno, José Luis Rodríguez Zapatero.Eduardo Parra - Europa Press

Num contexto em que a deterioração reputacional e institucional de Espanha entra numa fase preocupante, estamos perante um panorama mediático que incentiva “pena das notícias”. Para o leitor que não conhece o termo, estamos nos referindo a um episódio que geralmente envolve a prisão de pessoas famosas, geralmente políticos ou milionários, acusadas de graves crimes de corrupção em operações que normalmente se iniciam com a detenção do afectado com transmissão em directo na rádio, televisão e redes sociais que, por vezes, têm sido convocadas ao local pela própria Polícia Judiciária. É o início de uma via crucis que costuma durar anos e que, muitas vezes, destrói a vida da pessoa afetada e de todo o seu ambiente familiar e social. Muitos acabaram absolvidos após o correspondente julgamento oral, ou mesmo indeferidos pelo juiz de instrução.

Hoje em dia vemos dois casos claros deste tipo: Jonathan Andiccom meia dúzia de agentes Mossos d’Esquadra, desfilou algemado da corte até as masmorras e vice-versa. A sua imagem, que tem sido transmitida pela televisão em todo o mundo, foi manchada e ninguém, nem mesmo os futuros membros de um tribunal popular, o esquecerá. A Andic prepara sua defesa com a assessoria de uma sólida equipe de advogados criminais. Você se lembra de Luís Medina? O empresário, aristocrata e eventual celebridade dos tablóides? Pois bem, foi absolvido no chamado caso da máscara. Medina foi exonerado nesta matéria, mas… a sua honorabilidade e imagem pública foram restauradas? Eu não acho. A “penalidade do Telediário” foi mais forte que a resolução judicial.

Hoje em dia Jonathan Andic e José Luis Rodríguez Zapatero são submetidos ao julgamento paralelo da sociedade que, alimentado pela mídia e pelas redes sociais, já proferiu sentença contra pessoas que ainda não foram condenadas em tribunal. O alegado assassinato de Isak Andic pelas mãos do seu filho e a acusação do ex-presidente Rodríguez Zapatero no caso Plus Ultra são apenas os exemplos mais recentes de um problema estrutural. Assistimos a uma condenação social precoce. Antes de haver uma sentença final, a opinião pública já emitiu um veredicto. O acusado passa de “investigado” a “culpado” no imaginário coletivo. A sua honra, a sua reputação e, em muitos casos, a sua capacidade de defesa ficam comprometidas.

No caso de Jonathan Andic, a morte de seu pai em dezembro de 2024 foi inicialmente tratada como um acidente de caminhada. Mais de um ano depois, a investigação deu uma guinada: prisão por suposto homicídio, fiança milionária e liberdade provisória. Jonathan defendeu publicamente a sua inocência e apresentou provas que, segundo a sua defesa, apontam para um trágico acidente. Porém, durante semanas, a imagem de um filho supostamente parricida dominou capas, encontros e conversas. Embora o Tribunal não tenha se pronunciado, sua honorabilidade já sofreu danos irreversíveis na esfera familiar, empresarial e social.

Algo semelhante acontece com Zapatero. O ex-presidente foi acusado pela primeira vez na democracia como sendo investigado em um caso de corrupção ligado ao resgate do Plus Ultra e supostas conspirações de influência. O simples facto da sua acusação desencadeou uma mídia e linchamento político em que é apresentado, dependendo da cor ideológica de quem pensa, como um estadista honorável perseguido ou como o ápice de uma rede corrupta. Em ambos os extremos, a presunção de inocência está enterrada sob o barulho.

Esta presunção está consagrada no artigo 24.º da Constituição como um pilar do Estado de direito. No entanto, a opinião pública transforma isso numa presunção de culpa. O dano à reputação precede (e às vezes condiciona) o dano judicial.

O que fazemos para proteger a honorabilidade? A solução não é censurar a informação ou limitar a liberdade de expressão, mas sim fortalecer uma cultura jurídica e jornalística mais madura. Os juízes devem ser rigorosos com vazamentos que violem o sigilo do resumo. A mídia, rigorosa no uso do condicional e na separação clara entre fatos comprovados e hipóteses. E cidadãos, conscientes de que participar num linchamento virtual não nos torna vigilantes, mas sim parte do problema. Enquanto não internalizarmos que a Justiça não é exercida em conjuntos ou em cronogramascontinuaremos a condenar primeiro e a fazer perguntas depois.

Jonathan Andic e José Luis Rodríguez Zapatero, como tantos outros antes deles, merecem que a sua honra não seja destruída antes que um tribunal dite a última palavra. A verdadeira justiça não procura apenas a verdade. Também protege a dignidade daqueles que ainda não foram considerados culpados. Apelo aqui à responsabilidade dos meios de comunicação social e das redes sociais. Os meios de comunicação social têm o direito e o dever de informar, mas também a obrigação ética de contextualizar, evitar fugas de interesse e lembrar que se trata de factos alegados. As redes sociais amplificam o problema: o algoritmo recompensa a indignação, não a prudência. Uma manchete sensacional gera mais cliques do que um lembrete da presunção de inocência.

Há poucos dias, o Papa Leão XIV publicou a sua primeira encíclica: “Magnífica humanitas” que gira em torno da prevalência da pessoa na era da IA. Isto também se aplica à nossa forma de agir diante de uma possível “penalidade do Telediario”. Como salienta o pontífice, antes de emitir um julgamento, devemos defender sermos artesãos de esperança que trabalham para um diálogo aberto que restaure a confiança social como um objetivo. Seria algo como apostar na presunção de inocência antes de a culpa ser provada.

Fonte: 20 Minutos

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