Não se preocupe, precioso.
Já estou captando suas dicas de poeta, seus silêncios com metáforas baratas, seu “estou muito ocupado” disfarçado de haicai. Acredite, eu li todos eles. Sei decifrar você em cada ausência. Sei me descobrir em meio à ignorância do “vamos ver se um dia desses…”. Às vezes eles me sufocam; Às vezes eu os engulo e ajo como um louco. Mas eu já quis entendê-los.
Um dia desses – e esse dia chegará, mesmo que isso me machuque profundamente – saberei como deixar você. E você não terá mais mensagens minhas a tantas horas, nem ligações perdidas no meio das sete da tarde. Não vou te procurar para voltar àqueles cafés em sua casa que sempre acabavam frios porque não nos calávamos nem para recuperar o fôlego, ou para fingir que éramos algo mais que dois amigos que amavam literatura.
Algum dia, não vai doer que você não queira mais que vamos a eventos juntos, que não segure minha mão na frente de ninguém ou que me apague das fotos antes de publicá-las. Você não terá nenhum vestígio de mim. Nem nas suas redes, nem no seu correio de voz, nem na sua memória, nem no seu colchão, aquele que nunca me conheceu. Nem mesmo em suas memórias; Vou me retirar como um espinho para que você não precise fazer isso. Para completar, isso; Continuo colocando a sua dor antes da minha para que você sofra menos. Porque, desde o início, sempre quis não te machucar.
Nesse dia – e ele chegará, embora hoje eu não acredite – não deixarei mais vestígios do que você não me deixa contar pessoalmente na internet. Não haverá frases disfarçadas de poemas, nem fotos borradas das quais só você poderá captar as piscadelas subliminares de quando me deu pensamentos em papel fotográfico. Não haverá migalhas de pão que te levem até mim porque os corvos os terão comido depois de devorar meu cadáver em vida.
Apenas me dê tempo. Hora de me esvaziar de você sem morrer na tentativa. Porque eu ainda te amo. E é por isso que ainda estou aqui, escrevendo essas cartas para você que você não vai ler, que posso apagar depois, que me deixam sem tinta nas veias.
Quando eu realmente for embora, não farei barulho. Não haverá censuras, nem lágrimas públicas, nem cartas abertas. Apenas um silêncio pesado que o acompanhará por alguns dias até que evapore com o cozimento das lentilhas. E você, finalmente livre. E eu, aprendendo a ser livre pela primeira vez.
Mas não hoje. Hoje ainda fico. Hoje eu ainda te amo. Hoje seus silêncios ainda gritam comigo.
E o dia chegará, precioso. O dia em que, sem aviso prévio, você não estará mais na minha boca ou nos meus dedos te desenhando apaixonadamente nas nuvens. Não haverá mensagens, nem cafés, nem fotos, nem poemas, nem romances que finjam outra coisa. Não haverá nenhum vestígio.
E então – mesmo que você não diga – sei que você me procurará no silêncio. E eu não estarei lá. Terei ido tão fundo que até a sua memória tropeçará no vazio.
Naquele dia, finalmente, você me machucará menos que o ar.
E essa será a minha vitória.
© Sara Levesque
Fonte: 20 Minutos




